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Muito além dos padrões
Texto Patricia Galleto | Fotos Sidney Doll
As peças utilizadas em casa podem trazer mais informação do que as contidas em sua função primeira de uso. Confira um bate-papo sobre design e universo lúdico com o artista plástico Alê Jordão e o designer Flávio “Barão” Di Sarno, da Nódesign.


A violência que inspira

Portal Decoração - Como você definiria seu estilo?
Alê Jordão: Eu não sei explicar meu estilo, mas poderia ser neocontemporâneo. Acho que meu trabalho, além de ser irreverente e singular, traz esse meu deboche, que é a minha característica principal. Debochar da violência, das guerras, e transformar isso em arte. Transformar o conceito
de arte em design, design em moda, moda em qualquer outro elemento é o que representa todo o meu trabalho.


PD - Entre suas obras, estão peças para serem usadas em casa. Como vê o lúdico na decoração atual?
AJ: Eu acho superimportante porque o básico todo mundo já tem, então é legal você ter alguma coisa para mesclar, para mostrar que existe um conceito, que você é além de uma imagem que a gente está acostumado a ver.

PD - Tem a ver com personalidade?
AJ: Sim, cada um escolhe o lúdico da maneira com a qual se identifica. Eu, por exemplo, olho meus trabalhos e nem os acho mais tão loucos. Para mim isso é normal, é o pretinho básico. O pretinho básico para mim é pink. As pessoas falam que tem que ser muito homem para usar pink, e eu uso. Acho legal trazer a personalidade para casa, para o escritório, para o carro, trazer para o seu conteúdo de vida.


PD - Você acha interessante fazer o contraponto entre peças lúdicas e tradicionais?
AJ: É legal mesclar o velho com o novo, o contemporâneo com o arcaico, o barroco, trazer várias referências. Isso faz parte da cultura e da evolução do ser humano. Além disso, se eu fizesse um ambiente todo com a minha cara, acho que ia ficar pesado. Mesclar é o bom-tom para tudo.

PD - Como aplicar a dose certa de ousadia?
AJ: Antes de tudo, é preciso bom-senso. Quando vai fazer um trabalho, você está no limite entre o style e o brega. É uma pedrinha, uma grafitada, um colar a mais que você coloca e, pronto, estragou tudo. Existe um sexto sentido. Quem tem tem, quem não tem não dá para comprar.

PD - Qual é a proposta dessa cadeira?
AJ: Ela retrata a violência no Brasil e no mundo. Na Itália, por exemplo, a máfia só usa carro blindado; o papa também. A Rússia e o Iraque são os lugares onde mais existem carros blindados do mundo. É um conceito forte trazido para casa e transformado em objeto de desejo, escultura, arte. Ela se mescla com uma mesa de vidro que é bem clássica, limpa, de madeira. O diferencial está no furo do tiro. Por mais que seja monocromático – branco e transparente –, ele faz esses riscos, o que já dá uma cenografia e uma cor na escultura.

PD - Essa obra foi parte da Feira de Milão deste ano, não é?
AJ:
Sim, esteve na exposição Sex&Violence. O vidro é rígido. A cidade te engole, te agride, atira e você está protegido por um objeto que é sexy. O vidro é sexy, transparente, colorido. Quando cai água sobre ele, formam-se nuvens. Eu acho legal essa mistura do "sex" com o "violence". É uma mostra do que eu faço, da atitude, do conceito, da provocação. Eu provoco as pessoas.

PD - As cadeiras não geram uma tensão muito forte para um living?
AJ:
Geram. Se eu coloco uma cadeira confortável, todo mundo está esperando que vai se sentar e relaxar. Meu objetivo é causar essa coisa... não só uma sensação gostosa. A pessoa que vai se sentar e pergunta “mas não quebra?”, ou seja, faz uma série de perguntas antes. Ela gera questionamentos antes de você usá-la. Mas elas são super-seguras!


Elo entre artista e consumidor

PD - Qual é o espaço do lúdico nas criações de vocês?
Flávio “Barão” Di Sarno:
A gente cria sempre focando na relação entre o usuário e o produto. A gente fala que cria a partir do verbo. Então, não criamos uma mesa, mas o apoiar; não criamos uma cadeira, mas o sentar. Sempre buscamos que a pessoa tenha uma experiência diferente com o produto para criar uma relação, um vínculo e, nisso, acabamos caindo em uma experiência que, por ser nova e inusitada, acaba sendo lúdica.

PD - Como foi pensada a mesa Elo?
FBS:
 É um produto meio instalação. Queríamos brincar um pouco com uma característica de que gostamos muito, que são móveis que não têm sua forma final fechada, que oferecem possibilidades formais. O usuário se torna co-autor. Ele não usa a peça somente de uma forma distanciada e simplesmente apoia as coisas na mesa, ele interfere na própria configuração da mesa. É como se estabelecêssemos um diálogo com o usuário. A gente cria a peça e ele passa a criar depois disso.

PD - Esse é um conceito bem contemporâneo...
FBS: Sim, tem a ver com as características hoje da arte, da internet, nas quais você pode editar, misturar tudo e recriar. Os objetos dentro de casa também podem ter essa característica. O usuário não precisa ter a única experiência de consumir. As casas ainda são muito estáticas. Antigamente, trabalhava-se na mesma coisa a vida inteira, ficava-se casado com a mesma mulher, na mesma cidade, e hoje muda-se muito, inclusive de necessidades em relação à casa. Uma hora você está casado, tem filhos, e, de repente, você está sozinho... Ou está trabalhando em casa e, de repente, está trabalhando fora. Nos incomoda, por exemplo, cada cômodo ter uma função só, cada produto só poder ser usado de uma maneira. Acreditamos em uma casa mais flexível.

PD - Vocês combinam arte com funcionalidade?
FBS: A gente sempre busca funcionalidade. A questão é: qual função? Essa é a diferença entre um móvel que é simplesmente uma peça básica, que tem como única característica sua função primeira – então, uma cadeira que só serve para sentar, por exemplo – e outro no qual são trabalhadas várias outras funções, entre elas, a lúdica. A função de a pessoa poder se divertir, de o móvel questionar, de trazer para o usuário a experiência de lidar com o material, de entendê-lo, até traz, às vezes, uma dimensão ecológica por isso também. Isso é criar a partir da função, só que dentro desse conceito de algo mais amplo. Por outro lado, não faz sentido criar um produto que tenha coisas gratuitas (nossos produtos nunca têm algo que é totalmente supérfluo, tudo está a serviço da função dele). A gente não cria só ornamento, os produtos são bonitos, mas todas as suas características têm uma razão de ser.

PD - A mesa Elo assume essa versatilidade?
FBS:
 Sim, ela pode assumir formas bem diferentes. Foi pensada, principalmente, como mesa de centro, mas também pode ficar bem comprida, fazendo um minirrack em uma lateral, pode ser uma divisão entre duas salas quando for maior (a mesa possui três tamanhos). Se os elos forem unidos, ela fica plana como uma tábua e dá mais estabilidade.

PD - De onde surgiu essa ideia de similaridade com uma corrente de bicicleta?
FBS: A gente criou o tema de design molecular. Dentro da nossa proposta, todos os móveis eram feitos a partir de um elemento que se propagava, como se fosse uma molécula e, através da sua multiplicação, criava-se o produto. Aqui, a molécula é o elo. Existem outras peças nessa linha, formadas pela propagação de cubos, anéis...
Onde encontrar


Alê Jordão Tel.: (11) 5090-0061; www.alejordao.com
Flávio "Barão" Di Sarno Tel.: (11) 3814-8939; www.nodesign.com.br




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Quero parabenizar pela edição de maio da Casa & Decoração, que foi muito bem elaborada e tem matérias bastante úteis. Continuem neste caminho, melhorando e buscando atingir o máximo de leitores possíveis

Alessandra Silva, Salvador - Bahia, via e-mail
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