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Ponto de vista > Entrevistas
04/10/2010
Arquitetura do bom senso
Texto Romulo Osthues | Fotos Sidney Doll
É possível assumir uma postura a favor do meio ambiente quando o assunto é arquitetura e decoração? Para os integrantes do SuperLimão Studio, de design e arquitetura, a resposta é o bom senso. Acompanhe a entrevista e não deixe que sua boa intenção ecológica vá por água abaixo.


Portal DecoraçãoÉ possível ter uma atitude completamente sustentável na hora de construir, reformar ou decorar? Como?


Sérgio Cabral – Ser sustentável é ter bom senso. Se levássemos ao pé da letra a palavra sustentabilidade, seria necessário falar de uma cadeia inteira: o material de que é feito; a origem da matéria-prima e o transporte; a satisfação de quem trabalha; além de verificar se não há prejuízo a alguém ou ao entorno.

"Não adianta morar em uma casa sustentável e começar por demolir a antiga." Lula Gouveia, engenheiro-arquiteto


Lula Gouveia – Se você analisar, até o plástico é sustentável. Se um prédio construído na praia for revestido de plástico, o edifício vai durar a vida inteira. Se for feito de qualquer outro material dito sustentável, você vai gastar uma fortuna em manutenção porque o material pode não suportar a maresia. Outra coisa é a madeira de reflorestamento. Ela é muito interessante do ponto de vista ambiental. Mas, talvez, exista uma árvore velha no quintal de sua casa que pode ser derrubada e usada na construção, em vez de comprar madeira de outra árvore jovem, mais eficiente para o planeta, que será cortada no Pará. Pode até ser que seja de área de reflorestamento, mas haverá outro prejuízo embutido, que é o do transporte dessa madeira até a sua casa.


PD – O que os clientes buscam? Esse pacto com o bom senso ou ainda há dúvidas sobre o que realmente desejam?


Thiago Rodrigues – o nosso trabalho propõe inovação no uso de materiais do dia a dia. colocamos a mão na massa e testamos tudo. Algumas coisas acabam saindo e outras, não. É essa inovação que mais os atrai.


Lula Gouveia – eles já sabem o que vão encontrar, o que é bom e o que pode ser ruim também. O que não fazemos é algo que acreditamos não ser capazes de fazer direito. Assim, o bom senso acaba prevalecendo e vamos ganhando carta branca do cliente.


PD – Por que produtos e projetos verdes costumam ser tão mais caros que os comuns? A realidade não deveria ser outra?

"Assuma o que faz. Não dá para fazer as coisas com ignorância."
Sérgio Cabral, designer


Lula Gouveia – Realizamos a maioria dos nossos projetos abaixo do custo estimado inicialmente. É uma conta simples. Você vai pagar para jogar um objeto fora, para fabricar ou transportar um novo? Se conseguir transformar o “fora” em “novo”, haverá economia. Um projeto sustentável de verdade não é mais caro. No início, gasta-se mais. Porém, ao longo de 5 ou 6 anos, ele acaba se pagando por completo. Se pensarmos em todo o ciclo, o sustentável sai mais barato. Não adianta morar em uma casa sustentável e começar por demolir a antiga. O que vai ser feito com esse entulho? É melhor achar um terreno vazio para construir outra habitação ou aproveitar a estrutura que você já tem.


 

Antonio Carlos de Mello – Por outro lado, quando se trata de comércio, não é necessariamente que a loja encareça o produto. Temos de pensar que ela tem seus custos para manter funcionários, aluguel, publicidade. É meio injusto pensar que a empresa simplesmente ganhe uma grana alta. É claro que procuramos acreditar que uma empresa séria tenha o produto feito da melhor forma possível. Porém, às vezes, a forma perfeita inviabiliza o processo de produção.


Sérgio Cabral – É complicado porque não se sabe com certeza o que está por trás do produto. Se ele for mais caro por não deixar resíduos no meio ambiente na sua produção, é perfeitamente compreensível que os preços sejam mais altos. Nesse caso, será necessário investir na empresa para que sua fabricação não gere prejuízos ao meio ambiente.


PD – Vale mesmo pagar mais quando a empresa fornecedora assume posturas sustentáveis?

Thiago Rodrigues – No caso de um projeto, é possível negociar valores. Fazer esse exercício para reduzir o custo de uma obra demanda um trabalho maior do que, simplesmente, chegar na loja e escolher. Com isso, assumimos os riscos de usar materiais novos e os custos para fazer testes. A proposta do superlimão é outra. Tentamos reutilizar tudo, como a grade que sai da parede e vira um revestimento, a telha da demolição que se torna um agregado, o entulho de uma obra que é utilizado em outra e por aí vai.


"Às vezes, a forma perfeita inviabiliza o processo de produção."
Antonio Carlos de Mello, turismólogo
 

Antonio Carlos de Mello – Além disso, qualquer método produtivo recém-criado exige maquinário e processos novos. Portanto, fica mais dispendioso. É como um carro novo, mais caro do que aquele que já é produzido porque o maquinário só é pago em muitos anos. Leva-se um tempo para que o investimento seja recuperado, só depois é que o produto ficará mais barato. Estamos engatinhando no processo. Neste momento, todos os oportunistas do mundo vão querer se aproveitar.


 

PD – Como descobrir se um produto é menos danoso ao planeta. Qual a dica?


Lula Gouveia – Não é fácil. Mesmo para a gente, que lida com isso todo dia, cada produto tem de ter sua própria análise. Não basta somente avaliá-lo, é preciso checar a finalidade, a localização, a mão de obra usada. Em resumo, analise o objeto e a sua finalidade. Se for estrutural, trabalhe com um material que não tenha desgaste. Você deve levar em conta a função e o entorno. O que você tem por perto? Se houver coisas boas e elas funcionarem, provavelmente elas serão mais adequadas ao seu projeto.


PD – Qual o valor ecológico dos materiais reciclados já que, para consegui-los, muita energia é gasta no processo?


Lula Gouveia – Além dos materiais industriais, usamos bastante papel, plástico, madeira e metal reaproveitados. Aqui, friso a diferença entre reciclável e reciclado. Estamos entrando em uma geração de produtos recicláveis, que já foram fabricados para serem reciclados de uma maneira não agressiva. Isto é uma prioridade: trocar todo o processo ou encontrar outra via.


PD – Muitas vezes, encontramos produtos no mercado feitos de materiais que parecem não cumprir completamente com sua “intenção ecológica”. o que se pode pensar deles?

"O nosso trabalho propõe
inovação no uso de materiais
do dia a dia."
Thiago Rodrigues, arquiteto


Lula Gouveia – Ambientalmente, é uma incoerência fabricar um banco com estrutura de alumínio e finalizar com folhas de bananeira. O que vai durar mais, o alumínio ou a folha de bananeira? Se quiser fazer de alumínio, faça-o completamente ou use um material indestrutível no assento para justificar o gasto do alumínio. Se quiser fazer o assento de bananeira, prefira uma estrutura de bambu para suportá-la. Assim, se você não o quiser mais, cinco anos debaixo da terra serão suficientes para ela se decompor. A gente tem de agir de modo coerente. Usamos muita coisa industrial, que não deixa espaço para o modismo. É aquele material melhor, mais resistente e que tem o menor custo. Se usamos o pvc, conscientes de que não é legal para o planeta, não adianta ficar mascarando isso. No nosso trabalho, quando a proposta exige, a gente usa material que não é sustentável também.


PD – Qual seria a melhor atitude ecológica?


Sérgio Cabral – Assuma o que faz. Não é só sair comprando o que achar de reciclado que você pode pensar que já salvou o mundo. Saiba o que você está fazendo, procure entender o quão danosa sua ação pode ser. Não dá para fazer as coisas com ignorância. As pessoas acabam comprando títulos e eles nem sempre traduzem a realidade. Podemos nos adaptar, tentar ajustar os ponteiros para fazer o melhor, mas a consciência também deve vir de quem está fabricando. Ele precisa parar de querer tapar o sol com a peneira, e não, meramente, utilizar aquilo para fazer propaganda. Se os profissionais já têm dificuldades de encontrar um produto dito correto, imagina quem é leigo. 




















 

Onde encontrar


SuperLimão Studio Tel.: (11) 3518-8919; www.superlimao.com.br




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Dielle Melo, São Luís - Maranhão, via Twitter
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